ESCOLA MASSIFICADA "VERSUS" ESCOLA DE MASSAS

 

1. Introdução

     Com este trabalho, pretendo dar uma imagem do fenómeno educativo, enquanto ensino individualizado "versus" ensino de massas. Numa primeira parte abordarei o conceito da educação, com base nas lei de base do sistema educativo e farei algumas referências ás funções da educação. Para uma melhor compreensão do ensino de massas, achei por bem clarificar alguns conceitos alusivos a esta temática. Neste sentido analiso a importância da autonomia e da  universalidade no sucesso escolar. A individualização do ensino mereceu um tratamento especial, uma vez que o indivíduo é a essência de todo o processo educativo.

2. Conceito de educação na Lei de Bases

      Uma leitura atenta do Art 2º da lei de bases revela uma concepção humanista da educação ao consagrar princípios que conduzem á efectiva liberdade de opções e que a Constituição da República Portuguesa já havia explicitado. Referência disso são algumas das expressões usadas: "democratização do ensino", " igualdade de oportunidades", respeito pela liberdade de aprender e ensinar", "desenvolvimento pleno e harmonioso da personalidade dos indivíduos". É a partir de princípios como estes que se pretende " formar... cidadãos capazes de julgarem com espirito critico e criativo o meio social em que se entregam e de se empenharem na sua transformação progressiva.  Abandona-se de vez, pelo menos ao nível da enunciação dos princípios, um ensino que tem em vista a selecção e, pelo contrário, consagra-se um ensino que, respondendo às necessidades da realidade social, contribua para "... o desenvolvimento pleno e harmonioso da personalidade dos indivíduos". À formação de elites contrapõe-se agora, a "... formação de cidadãos livres, responsáveis, autónomos e solidários...". Ao consagrar uma educação do indivíduo que tem em vista o seu desenvolvimento harmonioso, rejeita como finalidade educativa a inserção de cada um no lugar que, supostamente já lhe estaria destinado pela organização social. Rejeita, no fundo, a perspectiva tradicionalista consignada na expressão popular "para cada pé seu sapato".

            Em síntese, os princípios gerais da lei de bases indiciam como horizontes educativos:

 

3. Funções da Educação

        Numa sociedade há vários sistemas - o sistema político, o sistema administrativo, o sistema económico, o sistema de bem estar ( serviços de saúde, segurança social, serviço social, etc.), o sistema de justiça, o sistema cultural, o sistema educativo, etc. estes diversos sistemas inter-actuam entre si e desempenham funções diferentes. O sistema educativo desempenha , no contexto desses sistemas a função de educar. Mas esta caracterização da função do sistema educativo é demasiado baga para podermos com ela analisar a realidade.

Daí que, devemos destinguir várias funções nesta função geral do sistema educativo.

3.1          Função Cultural

        O sistema educativo transmite um património cultural de conhecimentos, técnicas e crenças de uma civilização e, mais especificamente de uma nação, de geração em geração. Se não houvesse esta transmissão tudo o que as gerações passadas produziram seria perdido e cada geração teria de começar de novo. É precisamente porque cada geração pode acumular a sabedoria das gerações que a precederam que o progresso é possível. Cabe ao sistema educativo a função de transmitir esse património.

3.2  Função Socializadora.

        O sistema educativo integra os indivíduos na comunidade em que fazem parte dando-lhes uma linguagem, valores e comportamentos comuns. Tal função é absolutamente indispensável á vida social pois torna o convívio possível. Através da função Socializadora o sistema educativo integra os indivíduos em padrões comuns de comportamentos e valores ( uniformiza) mas também os diferencia. Essa função diferenciadora deriva de os diferentes grupos sociais terem hábitos, normas e valores potencialmente diferentes e de terem desiguais oportunidades de acesso á escola obrigatória e ao sucesso na escola, o que reforça a diferenciação social pela via escolar.

3.3  Função Produtiva

O sistema educativo tem também a função de fornecer ao sistema económico, e ao outros sistemas sociais atrás referidos, o pessoal qualificado de que necessitam. Daí que haja, a partir de certa altura no ensino secundário, diferentes currículos, conforme as opções vocacionais dos alunos, e que haja cursos específicos de preparação para a actividade profissional.

3.4  Função Personalista

O sistema educativo tem também a função de promover o desenvolvimento pessoal de cada educando nos domínios psicomotor, intelectual, afectivo, social, espiritual e moral visando o equilíbrio da personalidade e  a realização pessoal. Esta função de activação do desenvolvimento psicológico é mais visível na educação pré- escolar e no ensino básico.

3.5  Funções do sistema educativo e componentes do acto educativo em que preferencialmente se apoiam.

Cada uma destas funções apoia-se mais numa das componentes do acto educativo mas utiliza-as todas. Assim a função cultural apoia-se mais na componente de instrução, mas quer a estimulação do aluno(sobretudo a intelectual) que a sua socialização á vida escolar são indispensáveis. A  função produtiva apoia-se também na instrução em conhecimentos profissionais e em técnicas e destrezas especificas, mas do mesmo modo a estimulação e a socialização são indispensáveis. Em relação a esta função há que acrescentar a convivência de uma boa orientação vocacional e profissional para a adequação do aluno ao curso profissional. A função Socializadora apoia-se principalmente na componente de socialização, mas pressupõe a instrução nas normas, valores e crenças da comunidade social e nacional em que a escola se insere; também pressupõe a estimulação psicológica de comportamentos pró-sociais que facilitem o ajustamento do indivíduo há vida em sociedade. A função personalista apoia-se obviamente na componente de estimulação, mas implica uma socialização adequada, pois isso é essencial para o equilíbrio psicológico do educando e para a sua realização pessoal.

4. Alguns conceitos fundamentais

Pela sua relevância neste trabalho, importa começar por clarificar alguns conceitos fundamentais que, por aparecerem frequentemente associados e, por vezes, mesmo identificados, tem conduzido a expressões ambíguas.
  
     Tais conceitos são relativos ás designações de ensino básico, escolaridade universal, escolaridade obrigatória e escola de massas. A abordagem que aqui vamos fazer destes conceitos é breve, porque se trata tanto quanto sabemos de conceitos pouco estudados apesar de serem importantes.

            4.1 Ensino Básico

A noção de ensino básico é relativamente recente e está ligado á ideia de que educação escolar tem um papel relevante no desenvolvimento social. Trata-se de um conceito dinâmico que não tem o mesmo significado nos diversos países e cuja evolução tem ocorrido no sentido de corresponder a um currículo mais complexo e a uma escolaridade mais longa. Hoje o ensino básico não desempenha apenas funções derivadas das necessidades do desenvolvimento. Assim, segundo OCHS(1980): "...a função de um ciclo básico consiste em dar a cada um por um lado, algumas linguagens e alguns conhecimentos instrumentais que são, para a criança, o jovem ou o adulto ao mesmo tempo, chaves, meios de comunicação e meios de formação essenciais, e por outro lado, as atitudes que lhe são necessárias como indivíduo e como cidadão, assim como o meio e desejo de aprender (p. 281). Em Portugal a noção de ensino básico teve a sua tradução institucional ao criar-se a direcção - geral do Ensino Básico, pelo Decreto Lei nº 406/71 de 27 Setembro, que passou a super intender na " educação pré-escolar, e nos ensinos primário e preparatório", passando o ensino básico a constituir o conjunto destes dois últimos níveis de ensino, com a duração de seis anos. A partir da lei e bases do sistema educativo(Lei 46/86 de 14 de Outubro, Art 8º, 1), o ensino básico passa a ser constituído por três ciclos, o primeiro de quatro anos, o segundo de dois e o terceiro de três, no total de nove anos de escolaridade .

4.2 Escolaridade Universal.

Embora a escolaridade básica não seja necessariamente para todos, hoje, de um modo geral, nos países desenvolvidos, os conceitos de escolaridade básica e de escolaridade universal aparecem associados. Esta situação decorre do facto de, por razões de vária ordem ligadas ás necessidades de desenvolvimento económico e ao progresso social os estados terem sido levados a generalizar a todos os indivíduos de todos os estratos sociais uma mesma escolaridade básica. Ao receber todas as crianças em idade escolar a escola básica tornou-se universal. A criação de uma rede de escolas públicas que garantisse o acesso á educação para todos os indivíduos e a gratuitidade da frequência da escola foram os primeiros passos no sentido da universalização da escolaridade básica primária. Contudo estas medidas que assentaram na convicção vigente no séc. XIX, de que a instrução correspondia a um desejo das populações e que portanto, todos acorreriam á escola, desde que esta fosse facultada. Isto acabou por se revelar insuficiente para levar á prática a universalidade da escolaridade básica.

4.3  Escolaridade Obrigatória e Gratuitidade Escolar

A  obrigatoriedade escolar que corresponde á escola compulsiva é assim um dos meios de que os governos se tem servido para garantir que todas as crianças usem o seu direito á instrução. Por sua vez, a gratuitidade da escolaridade básica é outro instrumento que favorece a consecução da sua universalidade e, por isso, num grande nº de países a determinação de tornar a escola gratuita precedeu ou acompanhou a obrigatoriedade escolar. Contudo, em Portugal essa gratuitidade não tem sido grandemente facilitadora da universalidade do ensino básico por abranger um número de custos, restando ainda encargos económicos demasiado pesados para as famílias de recursos débeis. Com efeito, apenas tem sido gratuito o ensino ministrado, e somente as famílias mais carecidas tem recebido algum apoio, essencialmente, em livros e outro material escolar, alimentação, e transportes. A obrigatoriedade de frequentar a escola modificou a condição da criança particularmente " o seu modo de vida, a sua disponibilidade para o trabalho, a sua aprendizagem de uma linguagem comum, a ideia que fazia de si próprio como membro de uma nação, de uma comunidade e de uma família" ( OCDE, 1983, p.11). Ao tornar obrigatória a frequência da escola básica, o poder político usa um instrumento poderoso, para intervir no desenvolvimento da sociedade. Com esta intervenção feita de um modo geral em nome da igualdade dos cidadãos e das democracia, espera-se um  progresso social que leve um grande número de crianças a serem diferentes dos seus pais a nível de aptidões de comportamentos, de aspirações e de conhecimentos.

4.4  Escola de massas.

Com o alargamento da escolaridade obrigatória, os níveis de ensino que se seguiam imediatamente ao ensino primário elementar foram compulsivamente "invadidos", por crianças e adolescentes oriundos de estratos sociais tradicionalmente ausentes desses níveis de escolaridade. Conforme as filosofias que o informam, o referido alargamento da escolaridade obrigatória poderá conduzir a resultados substancialmente diferentes: uma massificação do ensino ou uma escola de massas. A diferença entre um ensino de massas e uma massificação do ensino consiste em que aquele representa uma nova concepção do ensino a que corresponde uma mudança qualitativa intencionada, enquanto que esta é apenas o resultado de uma simples expansão quantitativa do sistema de ensino sem que essas mudanças qualitativas intencionadas se tenham produzido(Pires, 1985, p.2). De um  modo muito linear, poderemos considerar duas filosofias de base em relação a esta problemática do alargamento da escolaridade obrigatória.            Uma considera que a igualdade de oportunidades na educação implica uma mesma escola para todos: a mesma organização as mesmas finalidades, os mesmos currículos(objectivos, conteúdos, metodologias, modos de avaliação) seriam levados á prática em escolas com o mesmo tipo de equipamento e servidas por professores com idêntica formação. O mérito de cada aluno seria então, o único responsável pelos diferentes resultados a que poderia conduzir a igualdade de oportunidades assim entendida. Conforme a importância que se atribuiu ao vinculo social dos conteúdos e das metodologias e á relevância que se confere a diversos outros elementos nos resultados obtidos pelos alunos de diferentes substratos sócio culturais(como os relativos ao modo como a escola está organizada e ás modalidades utilizadas na avaliação dos alunos) a escola informada por aquela perspectiva é pensada em função de um tipo de aluno ideal que representaria uma media abstracta dos alunos. Contudo, segundo algumas correntes este aluno ideal corresponde a um indivíduo oriundo das classes mais favorecidas e noutras a um representante da maioria dos alunos presentes na escola(geralmente da classe média), podendo a escola neste último caso dar apoio aos alunos com dificuldades especiais. Em qualquer destas situações o resultado é uma escola massificada. No primeiro caso verifica-se a massificação da velha escola de elites e no segundo caso surge uma escola, ainda massificada, que se dirige ao tal aluno representativo da maioria, que, por ser uma abstracção não tem correspondência na realidade.           Uma outra perspectiva que a escola deve dar igual importância aos diferentes substratos sócio culturais dos alunos e nessa medida, tal perspectiva contribuirá para uma escola de massas. Ao valorizar de igual modo os contributos dos alunos de diferentes estratos sócio culturais, a escola de massas propõe-se a partir de diferentes bagagens de base para atingir metas eventualmente diferentes sem, contudo, as hierarquizar. Nesta perspectiva a organização da escola deverá permitir uma estrutura curricular diversificada, conteúdos, métodos e pedagogias diferenciadas, para produzir efeitos igualitários ao adaptarem-se, quer ás características dos diferentes grupos de alunos, quer mesmo aos diferentes alunos. Em síntese ao contrário da escola de elites que veicula a cultura dos grupos sociais dominantes., a escola de massas tem em conta na sua organização, currículos, métodos e processos - a diversidade cultural da totalidade dos grupos nela representados. Se esta mudança qualitativa não acompanhar a mudança quantitativa resultante do acesso á escola de todas as crianças, o resultado será uma massificação da escola, isto é, uma escola de elites massificada e não uma escola de massas, adaptada a cada aluno ou grupos de alunos. A exigência de uma escola de massas põe-se particularmente em relação ao ensino básico. Com efeito, se torna obrigatória a escolaridade básica por se entender que ela  é necessária para que todos os indivíduos se realizem como pessoas e como cidadãos a escola terá então que lhes proporcionar condições para atingir essa meta. Como veremos adiante, poderá dizer-se que em Portugal, apenas a escola primária se tem aproximado em, alguns aspectos da escola de massas. O ciclo preparatório e o curso geral unificado do ensino secundário, apesar de receberem crianças de todos os estratos sociais, com uma grande diversidade de culturas e de educações informais, continuam a serem no essencial, modelos de ensino pensados para turmas homogéneas e constituídas por alunos interessados em aprender o que a escola tem para lhes transmitir e que é algo congruente com a sua própria cultura. Por outras palavras esses níveis do ensino constituem uma escola massificada e não uma escola de massas. As inovações introduzidas no ensino básico pela lei 46/86, 14 de Outubro, que a nível dos princípios, quer a nível das condições a criar para a consecução das finalidades propostas, preenchem uma parte importante dos requisitos de funcionamento de uma escola de massas que abordaremos de seguida.             Assim, para que a escola obrigatória seja uma escola de massas de não produto da massificação da escola de elites, é necessário, não só que essa nova escola tenha finalidades próprias, diferentes, em boa parte, das finalidades da escola selectiva que tradicionalmente correspondia a esses níveis de ensino, mas também que se criem as condições que possibilitem a consecução dessas finalidades. De outro modo, apesar da escola receber compulsivamente todas as crianças, apenas serviria os interesse de algumas e não de todas. Enquanto escola básica a grande finalidade da escola de massas, em que se deve inserir todas as outras metas mais especificas, corresponderia a fornecer a preparação mínima que permitirá a cada indivíduo vir assumir o seu papel e a sua condição de adulto, tendo em conta que vai ser adulto, num mundo cujas as características não são, em boa parte, previsíveis. Daí que se pretenda ajudar as crianças a serem flexíveis para se adaptarem ás condições variáveis da vida económica e social, a serem capazes de resolverem os próprios problemas a tomarem iniciativas, em suma, a adquirirem características que lhe permitam vencer as incertezas do futuro, não só como profissionais, mas também como pessoas e como membros de uma família e de uma comunidade(OCDE,1983,p.18). A evolução que as sociedades ocidentais tem experimentado a nível social, económico e cultural tem conduzido á necessidade da escola prosseguir objectivos novos que facilitem uma relação adequada entre as classes sociais entre os sexos, entre diferentes raças, entre as pessoas no âmbito do trabalho  e, também objectivos ligados a outros aspectos que cada vez mais interessam directamente a todos como, por exemplo, os da energia, da preservação do ambiente dos recursos humanos e da paz. No que diz respeito ao nível mais importante da escola de massas que é o correspondente á escola básica, essas finalidades próprias foram definidas numa reunião da Unesco.

5. Autonomia, Universalidade, individualização e insucesso escolar.

Para que a escola de massas atinja as finalidades a que se propões é necessário que tais finalidades lhe confiram autonomia em relação aos níveis de ensino que se lhe seguem no sistema educativo mas também que seja universal e promotora do sucesso escolar. Pela relevância que a escolaridade básica tem no desenvolvimento sócio - económico e cultural da sociedade e numa realização pessoal do indivíduo e, ainda, pelo facto de , em Portugal, essa escolaridade ser obrigatória, dizendo, assim, respeito a todos vamos centrar-nos particularmente na escola de massas realizada através da escolaridade básica.

            5.1 Autonomia.

As finalidades próprias da escolaridade de massas, enquanto escolaridade básica, como já repetidamente afirmamos, devem ser determinadas apenas pelos aspectos que se consideram relevantes para que cada indivíduo possa vir a realizar-se como homem do seu tempo na sua futura vida de adulto. As finalidades da escolaridade de massas devem, naturalmente estar integradas nas finalidades gerais do sistema educativo e articularem-se com as finalidades dos restantes níveis de escolaridade tal articulação não deverá por em causa a autonomia dessas mesmas finalidades, como vimos, devem ser próprias dessa escolaridade. Para um grande número de países entre os quais está Portugal, a escolaridade básica é, ainda ela própria uma meta , isto é, tem um carácter terminal para a maioria dos alunos que a frequentam e que a constituem a maioria que não prossegue estudos para além da escolaridade obrigatória. Nesse sentido, as finalidades da escolaridade básica de massas terão, pois, que ter em conta o caracter terminal que esta escolaridade tem para essa maioria de alunos, não devendo, pois, subordinar-se ás finalidades dos níveis de ensino que se lhe seguem no sistema educativo, como era, e ainda é, norma na escola básica de elites, fortemente influenciada pela universidade. Pelo contrário para que a escola básica seja uma escola de massas será ela que determinará algumas características dos restantes níveis do sistema educativo, o que não exclui mas antes torna necessário, a articulação a outros esquemas de educação permanente, por um lado, e ao ensino pós básico, por outro lado.            Contudo, se a escola de massas recebe todos os indivíduos de determinado nível etário deverá corresponder a um período de realização pessoal para cada um, independentemente do caminho que cada um vier a seguir, ao mesmo tempo que preparará esse caminho, qualquer que ele seja. Deste modo a escolaridade básica de massas deverá ter, também, um carácter preparatório do prosseguimento dos estudos. O facto da escola de massas ter em atenção o que "é mais importante para a maioria dos alunos na fase da vida em que se encontram constitui uma alteração significativa em relação á escola pós - primária tradicional. Finalmente importa referir que a efectivação desta autonomia passa ainda pela existência de unidade entre os vários ciclos da escolaridade de massas, da unidade essa que implica uma articulação que contemple o modo como esses ciclos estão organizados, os seus objectivos, conteúdos, metodologias, e tipos de avaliação. Neste mesmo sentido a lei de bases do sistema educativo determina para o futuro ensino básico uma "articulação entre os três ciclos que obedeça a uma sequencialidade progressiva, conferindo a cada ciclo a função de completar, aprofundar e alargar o ciclo anterior, numa perspectiva unidade global do ensino básico" e em que os objectos específicos de cada ciclo se integrem nos objectivos gerais do ensino básico(Art 8º).Levar á prática esta perspectiva, em Portugal, será um contributo relevante para a transformação da escola básica de elites, organizada segundo uma sequencialidade regressiva, por estar subordinada ao secundário numa escola de massas. Esta por sua vez deverá ter finalidades autónomas e uma articulação; quer interna, quer com o secundário que se desenvolva segundo uma sequencialidade progressiva. Contudo, esta mudança curricular terá de ser acompanhada de uma nova atitude dos professores face á escola básica, pois representa uma inversão relativamente ao que estava consagrado, na medida em que os professores de cada ciclo de estudos não se sentiam tão obrigados a remediar as deficiências básicas que os alunos, eventualmente traziam do nível anterior, como a prepará-los para o nível seguinte. Daí que as crianças insucedidas nos primeiros anos de escolaridade tivessem grandes probabilidades de repetir o insucesso escolar.

5.2          Universalidade.

Se o poder político reconhece a todos os indivíduos o direito a uma educação que os prepare para assumir o papel de adultos através de uma escolaridade básica de massas, então esse mesmo poder terá que garantir a universalidade dessa escolaridade. Só se for universal, isto é se receber todos os alunos, é que um ciclo de estudos pode realizar uma escola de massas. Nas últimas décadas, em Portugal, a escola secundária que não era obrigatória tem vindo a ser procurada por um número crescente de indivíduos de todos os estratos sociais, circunstância que põe o problema de transformar numa escola de massas um nível de ensino tradicionalmente frequentado apenas pelos alunos oriundos dos estratos sociais não desfavorecidos. Como respostas a esta situação poder político que pretenda promover o progresso social através da democratização da educação procurará efectivar a igualdade de oportunidades à educação para todos, universalizando esses níveis de educação secundária como vai acontecer em Portugal com a inclusão do actual curso geral unificado no ensino básico, por força da lei 46/86 , de 14 de Outubro. Contudo, tornar obrigatória este nível de escolaridade não será a primeira nem, talvez, a mais importante das medidas a tomar no sentido de se alcançar a sua universalidade, como os factos tem provado á sociedade, pelo menos no que se refere a Portugal. Mais eficazes para a consecução desses objectivos serão outras medidas como o alargamento da rede escolar acompanhada da gratuitidade dos transportes de acesso á escola(ou  mesmo de alojamento, quando necessária), da gratuitidade da frequência da escola, dos livros e restante material escolar, do fornecimento gratuito das refeições, bem como da concessão da bolsa de estudo, tudo isto, aliás, já previsto na lei 46/86, de 14 de Outubro(art. 6º - 5). A maioria destas medidas tem em vista minimizar as diferenças, a nível de necessidade de apoio económico que ocorrem na diversidade de alunos da escola de massas, através de um apoio dado, segundo critérios de discriminação positiva, de acordo com as carências de cada um. No entanto, estas medidas poderão garantir apenas a universalidade do acesso á escola e, por isso deverão ser complementadas com outras de apoio educativo. Estas por sua vez, terão em conta a diversidade dos alunos a nível de desenvolvimento de capacidades e de culturas de origem, de modo a promoverem o sucesso escolar como veremos no ponto que se segue.

 

5.3  Sucesso Escolar

 

Como vimos, o facto de se atingirem a universalidade da educação facilmente numa escola de massas, mas, pelo contrário, conduz frequentemente á massificação da escola de elites. Poderemos mesmo afirmar que a garantia do acesso de todos á educação não faz sentido se, simultaneamente não forem criadas condições para que essa escolaridade seja bem sucedida. Por outras palavras, a relevância das finalidades próprias da escolaridade de massas exigem a universalidade, quer, do acesso á educação quer no sucesso da educação. "O ensino de massas representa uma intenção de criar e desenvolver um ensino universal, destinado a uma variedade muito grande de indivíduos e grupos sociais, implicando a ideia de que este ensino pode ser conseguido e sucedido e que para isso requer a construção de um modelo com capacidade resposta a estas condições(Pires, 1985, p.7).Se ao receber todas as crianças em nome da democratização da educação não se tiver em conta a diversidade que caracteriza uma população que abrange todos os estratos sociais o resultado será(tem sido) a expansão da escola selectiva - a par do acesso à educação também se expande o insucesso escolar. Particularmente quando é obrigatório qualquer nível de escolaridade deve ter como objectivo que cada aluno seja bem sucedido como pessoa e como estudante, isto é, deve corresponder a um período de realização pessoal e de sucesso escolar. A obrigatoriedade de frequentar a escola mudou a condição da criança, o seu modo de vida a sua disponibilidade e, também, por isso, não deve constituir uma fase penosa, mas pelo contrário ser um período estimulante da sua existência e benéfico, não só para o futuro, mas também para o presente.            Para aqueles que não vão além da escolaridade obrigatória esta é, muitas vezes, fonte de frustrações que se vão reflectir no seu futuro, como pessoas e como profissionais. Uma boa parte destes alunos o que melhor aprende na escola obrigatória é que não são capazes de aprender e , pior isso, interiorizam que "é natural" que sejam eles a ocupar os lugares mais baixos da escala social. E se hoje já não se espera que a escolaridade básica seja um instrumento importante de mobilidade social é porque não tem sido pensada e implementada como uma escolaridade de massas,. Porém, pretende-se, pelo menos, que ela reduza o mais possível os mecanismos de reprodução da estratificação social que lhe tem andado associados. A escola obrigatória tem de funcionar como processo libertador e não como mecanismo de desigualdades sociais, o que implica uma construção curricular que privilegie a sua dimensão social e o uso de métodos que, mais do que combater o insucesso, promovam o sucesso escolar.
           Nesta perspectiva, a inovação mais relevante experimentada pelo ensino básico nos últimos anos no sentido de se aproximar de uma escola de massas foi a substituição de um sistema que favorecia certas crianças por outro mais aberto, de modo a caminhar-se no sentido de garantir a todos uma educação de igual qualidade. Tenta passar-se assim, da igualdade de oportunidades de acesso á escola para uma situação em que crianças diferentes são ajudadas a "tornar-se iguais", através de uma discriminação positiva que atenue as carências do meio familiar e da comunidade.
           Em alguns países esta preocupação vai mesmo ao ponto de assegurar a todos os alunos de escolaridade obrigatória o sucesso escolar entendido este no sentido de passagem automática para o ano seguinte.

5.4  Individualização do ensino.

De forma ideal, o ensino individualizado constrói-se a partir das necessidades dos interesses, do grau de desenvolvimento e, em geral, de todas as características importantes de um aluno em particular. Tem-se em consideração a sua personalidade, o seu passado, mais em especial a sua história escolar e o nível das suas aquisições. O ritmo e a duração do trabalho estão adaptados tanto quanto possível. Há quem deseja-se que todo o curso fosse individualizado. À escala de um sistema educativo global, isso não é possível, nem desejável . Umas  vezes a individualização é limitada só a uma disciplina, inclusive só a uma parte desta; outras vezes as bases da aprendizagem são lançadas de forma colectiva, depois os aprofundamentos e afinações individualizadas ou, ao contrário, as principais noções de partida são abordadas individualmente, sendo depois o edifício geral acabado de forma colectiva. Em vez de tomar como alvo um único aluno, também é possível dirigir-se a pequenos grupos bastante homogéneos ou, pelo contrário apostar na dinâmica da heterogeneidade: a tríade incluindo um aluno adiantado, um médio e um atrasado dá, por vezes, bons resultados.Na maioria dos sistemas de individualização ou semi - individualização formalizados, encontra-se o esquema: pré-teste - aprendizagem - avaliação formativa contínua - pós-teste. O pré-teste versa sobre o domínio dos pré-requisitos. A avaliação formativa permite acompanhar subtilmente o avanço, diagnosticar a natureza das dificuldades encontradas e propor vias de remediação. As técnicas de individualização ora são mais ou menos rudimentares ora muito sofisticadas. Encontra-se ainda, nas classes de professores primários incumbidos de ensinar a vários níveis escolares em simultâneo ficheiros de exercício e de actividades de enriquecimento, nas quais os alunos "bebem" conforme a sua disponibilidade a rapidez dos seus progressos. A individualização não serve necessariamente uma pedagogia humanista. A maioria das vezes, as técnicas ou sistemas que vão ser descritos tanto servem o ensino autoritário como uma educação democrática. A individualização muda o papel do professor. O tempo consagrado ao frente a frente com o grupo - classe diminui, em compensação, a elaboração de programas de individualização mesmo modestos leva muito tempo. Este é considerado se nos empenharmos por exemplo na realização de sequências de aprendizagem ou de montagens vidio. Quanto á elaboração de programas complexos de aprendizagem assistida por computador e de sistemas experts, ela está quase sempre fora do alcance dos mestres em funções. Daí a necessidade constituir equipas de professores libertos da totalidade ou de parte das suas funções docentes. A ajuda de especialistas é muitas vezes indispensável. Por outro lado a gestão de um sistema de ensino individualizado não se improvisa visto que os docentes abdicam, á partida, de uma parte considerável da sua autoridade. A organização do emprego do tempo e a planificação das aprendizagens, sobretudo se tiver de ser realizado um vasto programa, também não são uma tarefa fácil.Finalmente, em geral subestima-se a importância dos locais, a multiplicidade das formas de trabalho - actividades individuais, pequenos grupos e as reuniões plenárias periódicas - e a grande diversidade dos materiais utilizados exigem muito espaço.             Numa palavra: praticada em larga escala a individualização do ensino acarreta quase sempre consideráveis despesas, de que importaria estabelecer a rentabilidade. Também a este respeito as certezas continuam a ser raras.

Conclusão

    Em  função deste trabalho, verificamos que as linhas mestras da Reforma educativa, tal como as entendemos, vão no sentido da construção da escola de massas. Esta compreende o projecto educativo, num contexto onde a participação de todos os elementos da comunidade educativa, legitimada pela existência de interesses sociais amplos e diversificados relativamente à tarefa educativa, surge um esforço de adequação ao meio da escola. E porque a transformação da escola no sentido que vimos defendendo ao longo deste trabalho exige quer a ruptura com os modelos e os processos vigentes quer a invenção de caminhos novos, necessário se torna introduzir uma verdadeira dinâmica de inovação nas escolas. Quando o ensino individualizado ao lado do ensino colectivo, então haverá melhores condições para a educação das crianças.Se a palavra do professor, as trocas das ideias, as lições, explicações, interrogações colectivas são para a criança a forma principal da comunicação do saber e da aprendizagem das técnicas, o trabalho pessoal controlado surge como necessário para a formação intelectual e moral do indivíduo. Adquire sozinho o método de trabalho que lhe convém, torna-se responsável pela sua cultura, desenvolve-se mais, está melhor preparado para a vida. Assim uma educação colectiva individualizada ao mesmo tempo é aquela que melhor responde aos interesses do indivíduo e da sociedade, a que dá ao educador mais segurança e eficiência.  É claro, que existe vantagens e desvantagens na discussão aqui travada, mas a criança é o bem mais precioso á face da terra, porque através de certos métodos, poderemos criar o cidadão perfeito do mundo e construir a Paz.

DOWNLOAD

     

 

Navegue Para outros sites.