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Ó minha aldeia, feita imagem!
Quimérica, paisagem, que se esfuma nos longes do meu ser...
E é a mesma que eu avisto, à luz do dia,
Desdobrando-se em névoa eterna, sem perder
Seus contornos e cores de harmonia.
Ó paisagem da minha intimidade,
Que, dentro de mim, eu trago em terra e céus,
Tal como trouxe o mundo, em outros tempos,
Deus, antes de o modelar em sombra e claridade.
...
A música infinita das esferas
Deslunbra todo o espaço transcendente...
E existem siderais, ocultas primaveras
Que florescem meu ser, de longe, vagamente.
E a criança que fui, nos tempos do Passado,
Em mim revive, e sinto-me sagrado!
Minha aldeia, durante a noite escura...
Choupanas abismadas, sem figura;
Ruínas que a treva faz. Escuros tons.
Sepulturas de cor. Fantástica paisagem...
O vento perpassando é torva imagem,
Desenhada a sons.
...
Aldeia da beirinha de água... Ó rio...
Pescadores lançando a linha com o anzol, através da neblina,
o lácteo véu de frio
Rasgado pelo sol.
Azenhas, velhas mós de pedra dura;
Açudes, borbotões de espuma a cair;
Grupos de árvores, maciços de verdura
Cercados de água, a rir.
Ó Tâmega baixinho e transparente,
Sob copados amieiros...
Ao declinar o dia, és pálida corrente,
Onde, triste, flutua a sombra dos outeiros...
...
Agora, amo-te mais,
minha saudosa aldeia,
Na agonia doirada e triste do arvoredo,
Quando, à tarde, aparece, enorme, a lua cheia
E em toda a natureza há um íntimo segredo.
Ó tardes outonais
Onde repousa o Abril
desfeito em cinza e pó,
Queixumes e orações dos ermos pinheirais,
Como eu vos ouço bem,
quando me encontro só!"
Teixeira de Pascoaes
(Poeta desta Terra)